Os Analistas

Um pouco de história

Em tempos de Carnaval que seja bem-vinda a crítica social…e política também

Com sua cadência militar e compasso binário, as marchinhas são parte integrante do Carnaval brasileiro e muitas delas acabaram se tornando grandes sucessos e ultrapassaram diversas gerações.
Marchinhas de carnaval retratam história e política da sociedade brasileira.

De origem portuguesa, as marchinhas carnavalescas foram inicialmente introduzidas no Rio de Janeiro. Seu apogeu se dá entre as décadas de 1920 e 1960. “Ó abre alas”, composta em 1899 pela Chiquinha Gonzaga, é considerada a primeira marchinha brasileira. O objetivo consistia em alegrar o cordão carnavalesco Rosas de Ouro.

As marchinhas de carnaval, aos poucos foram criando corpo: Uma de suas principais características é a capacidade de, maliciosamente, realizar crônicas do cotidiano, debochar ou criticar personagens públicos ou anônimos da cidade, momentos políticos.

“Elas são a expressão do humor popular da praça pública; é um processo de carnavalização em que não se leva nada a sério”, afirma Walnice Nogueira Galvão, autora de Ao Som do Samba- Uma Leitura do Carnaval Carioca.

Como exemplo, se pode retomar Lamartine Babo, o “rei” do carnaval carioca, que em 1932 referia-se à mulata e não perdeu a oportunidade para alfinetar o golpe de Estado que marcou a ascensão de Vargas ao poder, em 1930, com a consequente nomeação de interventores para administrar os estados brasileiros. Em uma das estrofes de O teu Cabelo não Nega, Lamartine canta: “Tens um sabor / Bem do Brasil / Tens a alma cor de anil / Mulata, mulatinha, meu amor / Fui nomeado teu tenente-interventor”.

Além de política, as temáticas eram as comédias de costumes, o nonsense (com o casamento de rimas sem sentido) e a crítica social, como nos versos “Tomara que chova / Três dias sem parar / A minha grande mágoa / É lá em casa não tem água / E eu preciso me lavar”. O péssimo abastecimento de água no Rio inspirou Paquito e Romeu Gentil a lançar, em 1951, Tomara que Chova.

O Carnaval maranhense também é permeado de marchinhas com toda essa verve de crítica, bom humor e malícia. Uma das que mais me atraem, exatamente por fazer uma crítica à situação política e ideológica vivida pelo país atualmente, é “O João é um fascista”, de autoria do professor de História Paulo César Furtado Almeida (“Paulo Gereba”). Segundo “Paulo Gereba” o propósito de sua marchinha é criticar, de forma bem-humorada, os (des)usos que a extrema-direita faz do fascismo (ideologia de direita), colocando-o de forma leviana e proposital no campo ideológico da esquerda. A letra da marchinha de Paulo Gereba segue abaixo:

O João é um fascista.
Ele vai ficar na pista.
O João é um fascista.
Ele vai ficar na pista.

É da direita.
É da esquerda.
Que confusão do analista.

É da direita.
É da esquerda.
Que confusão dos analistas.

Meu irmão toma cuidado.
Com esses antagonistas.
Pois eles são de carteirinha.
Pseudos analistas.

É da direita.
É da esquerda.
Que confusão dos analistas.

Tema: O João é um fascista.
Mês/Ano: Janeiro de 2018.
Autor: Paulo Gereba

Paulo Henrique Matos de Jesus é doutorando, mestre e graduado em História; pesquisador em História Social do Crime, Polícia e Segurança Pública

2 Comments

2 Comentários

  1. Dayse Waldorf

    02/02/2023 at 21:46

    Rs, ótima marchinha em tempos que não se vê essas críticas de grupos carnavalescos, só as mesmas reproduções obsoletas.

  2. Paulo Almeida

    27/01/2023 at 14:07

    Excelente reflexão. As marchinhas carnavalescas são espaços de narrativas importantes do cotidiano dos seus elaboradores. Parabéns Paulo Henrique.

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