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Manifestação no Congresso Nacional no dia da posse de Sarney como Presidente da Republica. (foto: F. Gualberto/CB DA Press)

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O poder e a comunicação juntos pelo controle social

Nos últimos 10 anos o Brasil vem enfrentando uma guerra ideológica fincada em cima de pautas que estavam adormecidas e de certa forma blindadas pela grande imprensa há muito tempo.

Na comunicação existem algumas teorias que norteiam os profissionais da mídia, a mais difundida e aplicada é a agenda setting ou teoria do agendamento. Tentando simplificar  “é tipo um efeito social da mídia que compreende a seleção, a disposição e incidências de notícias sobre temas que o público falará e discutirá”. Segundo o jornalista criador do termo guerra fria e vendedor de 2 Pulitzer Walter Lippmann,  “as pessoas não respondiam diretamente aos fatos do mundo real, mas que viviam um pseudo ambiente composto pelas imagens em nossas cabeças”. Simplificando um pouco mais, os veículos de comunicação de massa difundem somente o que é de seu interesse editorial e necessariamente comercial.

Durante muito tempo as ferramentas tecnológicas eram limitadas e se não bastasse limitavam também a possibilidade das pessoas se manifestarem nos meios de comunicação, um exemplo remanescente dessa blindagem é quando tem algum politico falando ao vivo em um programa de rádio respondendo perguntas na maioria das vezes ensaiadas, mas se você tentar questionar ao vivo mandando áudio ou ligando dificilmente sua participação vai ao ar. Os grandes veículos fazem de tudo não perderem o controle da opinião e para isso continuam usando a velha censura mascarada em desculpas recorrentes.

Esse controle quase que total da mídia começou a enfraquecer nos últimos 10 anos quando os aparelhos celulares passaram a ter internet móvel e a popularização desse serviço atingiu quase todas as camadas da população. A consequência mais importante dessa quebra de monopólio foi que todo e qualquer cidadão passou a difundir suas opiniões, além disso, começaram a contestar o que saía na grande mídia e com isso a massa passou a ter voz.

Um exemplo claro dessa força opinativa foi um episódio que marcou a eleição do até então desconhecido Daniel Silveira ao questionar o apresentador Willian Bonner sobre a veracidade de uma matéria onde bandidos foram executados pela policia em uma troca de tiros no Rio de Janeiro, a matéria foi exibida a noite e na manhã seguinte ele gravou um vídeo com o celular e mostrou imagens que a rede globo não tinha exibido, meses depois Daniel Silveira foi eleito deputado federal e o resto da história dele vocês já conhecem.

Mas a globo que tem em seus quadros profissionais específicos para análises de cenário e monitoramento de tendências através de pesquisas         percebeu esse fenômeno há mais tempo, mais precisamente em 2013. Curiosamente dois meses após explodirem as manifestações em todo o país que teve como estopim o aumento de 20 centavos no preço da passagem de ônibus.  A rede globo assinou um editorial pedindo desculpas por ter apoiado o golpe da ditadura em 1964, mas por que 49 anos depois e justamente naquele momento onde o país ainda estava tentando compreender os efeitos daquelas manifestações. Hoje sabemos a consequências, os desdobramentos e a que ponto chegamos com tamanha instabilidade causada no país. Mas entre tantos votos a favor do  impeachment da presidenta Dilma um marcou mais que os outros, a  dedicatória de Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra, a partir daí o tema golpe militar passou a ser recorrente no Brasil, mas a globo agora já tinha a sua carta de seguro lida em rede nacional.

Esse direito de opinar concedido involuntariamente às massas passou a ser um problema sério, afinal as estruturas do poder foram profundamente abaladas e o sistema precisa tomar as rédeas e voltar a ter o controle, em 2014 à tentativa foi com a lei 12.965, conhecida como “Marco Civil da Internet” que tentou estabelecer limites, mas não foi suficiente e nos últimos anos vivemos o pesadelo das fake News e uma eleição de Bolsonaro em 2018. O contra ataque do sistema veio com a PL 2630/2020 que instituiu a lei brasileira de liberdade, responsabilidade e transparência na internet que vem tentando regulamentar e controlar a opinião das massas, porém vem esbarrando na dificuldade de entendimento sobre o que é liberdade de expressão e isso tem gerado uma série de conflitos, inclusive a prisão do próprio Daniel Silveira que usamos como exemplo.

No Maranhão esse controle de opiniões é um pouco mais fácil, afinal o governo regula veladamente os veículos de massa e uma boa fatia das redes sociais, outro fator é que somos destaque na pobreza e não deve sobrar muito do auxilio Brasil para um bom plano de internet,  dessa forma fica bem mais fácil aplicar a teoria do agendamento. Um exemplo claro foi campanha eleitoral do ano passado em que boa parte da imprensa sequer questionou os índices de pobreza do Maranhão, pauta que é recorrente em todos os estados, principalmente em época de eleições, mas a estratégia foi usar o manual da agenda setting e direcionar a pauta para polarização nacional, caminho que era mais fácil, uma vez que não se falava outra coisa no Brasil, a guerra entre o bem o mal e você estava convocado a torcer por um time, mas para jogar mesmo pouquíssimos foram escalados. Tipo a escolha de quem joga na seleção brasileira, apesar de sermos o país do futebol, porém quem coloca os nomes na lista são os interesses econômicos que você conhece bem, mas finge que não vê ou prefere não saber.

Mas não precisamos ser pessimistas, esse ano foi de vitórias na política, vitorias pessoais é claro, teremos três ministros maranhenses e mais uma vez somos induzidos a comemorar ascensões e carreiras particulares, assistindo e aplaudindo conchavos partidários. Mas você pelo menos sabe para que serve um ministro das comunicações? Talvez o mais famoso deles tenha sido Antonio Carlos Magalhães no governo do maranhense Sarney e o seu grande feito foi distribuir concessões de Rádio e TV para os coronéis e aliados, foi nessa época inclusive que a família do então presidente da república ganhou o sistema mirante de comunicação e de quebra ainda tomou a concessão da globo da difusora abrindo caminho para os Lobões comprarem a emissora da família Bacelar. Já para o povo que comemorou a chegada de um maranhense a presidência da república só restou acompanhar pela televisão o fortalecimento de uma oligarquia que ficou algumas décadas no poder até ser “derrubada” por uma narrativa de um Maranhão liberto do atraso, mas que na verdade não mudou muita coisa, basta dar uma pesquisada nos números da pobreza no Estado e constatar que os resultados foram bem abaixo das promessas.

Mas vamos comemorar assim mesmo, é réveillon, tem festa para o povo na praia e banquetes para os heróis nos palácios, não podemos ser pessimistas a ponto de não ficarmos felizes com a ascensão de um grupo seleto de políticos com super poderes que seriam capazes de transformar a vida sofrida dos maranhenses além dos discursos calorosos nos palanques, portanto mais uma vez vamos renovar as esperanças lá em Brasília e aqui na província, mas comemore com moderação porque no dia 02 a conta começa a chegar e não terá ninguém para pagar para você.

 

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