A primeira sessão do ano terminou de forma tensa na Assembleia Legislativa do Maranhão. Num pedido de questão de ordem o deputado Rodrigo Lago fez diversas reclamações quanto à regularidade da sessão extraordinária, que segundo ele, nem foi comunicada a todos os colegas e também reclamou, como líder de bloco, de ter a palavra cerceada pela presidente Iracema Vale.
A presidente ouviu a fala do deputado e, na resposta, disse que o responderia e encerrou a sessão sob os protestos de Lago por não ter tido a questão de ordem apreciada. Segundo Lago a sessão tem elementos para ser declarada nula.
O clima tenso já era esperado por conta dos últimos acontecimentos, mais precisamente pela expulsão de sete deputados do PSB, ocorrida semana passada.
2026, ano eleitoral, cheio de tensões já começa dando sinais de como será o embate político no estado, marcado por um Executivo atípico, destoante dos últimos anos, trazendo práticas em desuso, como controle de prefeitos, deputados e políticos de mandato de maneira geral, através de um pulso firme, com poder concentrado na família do governador.
No Legislativo, por outro lado a marca é a da subserviência, tendo inclusive, nos primeiros momentos a presença imperativa do irmão do governador na Direção de Ralações Institucionais da casa, de onde foi tirado por ordem expressa do Supremo Tribunal Federal.
A expulsão e os blocos
A mesa diretora da ALEMA deve começar a atividade tentando consertar a bagunça gerada pela expulsão dos deputados do PSB, ocorrida na semana passada, parlamentares que centralizavam as decisões da casa, através de um grande Bloco de apoio ao governo. Foram expulsos os deputados Edson Araújo (envolvido até o tampo em investigação por desvio de dinheiro), e mais Adelmo Soares, Andreia Rezende, Antônio Pereira, Daniella, Davi Brandão e Florêncio Neto, integrantes do Bloco Juntos Pelo Maranhão, que formava a linha de frente de defesa do governo.
O PSB oficializou a filiação dos deputados Leandro Bello, Othelino Neto e Fernando Braide e comunicou a saída do partido do Bloco Juntos Pelo Maranhão, uma que, segundo Lula, p PSB já era formalmente de oposição. Agora os socialistas passam, oficialmente a integrar o bloco de oposição na Assembleia Legislativa, que conta com 11 deputados: Carlos Lula, Iracema Vale, Francisco Nagib, Ariston, Othelino Neto, Fernando Braide, Leandro Bello (todos do PSB) além de Rodrigo Lago, Júlio Mendonça, Ricardo Rios e Ana do Gás (do PCdoB).
O clima na ALEMA é dos piores. O constrangimento que antes pertencia ao deputado Carlos Lula, integrante de um partido, cuja quase totalidade era apoiadora do governo, agora fica com a presidente Iracema Vale, defensora do governo num partido de oposição. Além dela Ana do Gás que, embora no PC do B (partido de oposição), vota com o governo. Mas nada disso deve demorar. Em alguns dias abra-se a “janela partidária” e todos poderão trocar de siglas sem nenhum prejuízo ao mandato.
Climão
O clima já começou tenso, desde as atividades iniciais. Os deputados de oposição resolveram se afastar da solenidade de abertura do ano legislativo, até porque o governador Brandão estava presente. Foram representados pelo Deputado Carlos Lula.
Perguntei a um deputado “como está o clima por aí”? “Tão ai com cara de jururu”, respondeu ele. Sobre a recomposição dos blocos, outro deputado, de oposição, respondeu que “ainda não descobrimos por onde, mas eles estão mexendo”.
No seu discurso o governador repetiu o mais do mesmo que vem dizendo a meses: que fica no cargo até o fim do mandato para eleger o sobrinho. Mas não sem deixar, no meio da gagueira habitual de sua textualidade, que é um caminho e não uma decisão:
“Eu diria que hoje eu recebi a visita de 12 partidos e entenderam que o Orleans é um bom nome. Mas não se toma decisão apenas com partidos, que é pra decidir apenas o quadro político. A gente começou a fazer pesquisa e o Orleans está aparecendo muito bem nas pesquisas. Então do jeito que as coisas estão caminhando tudo indica que eu vou ficar até o fim do governo até porque o vice-governador já disse que não vai sair do governo. Então em respeito ao nosso grupo, pelo nosso grupo, às vezes é melhor ficar sem mandato, mas salvar o grupo. Estou pensando mais no grupo do que em mandato, estou pensando no povo. Hoje eu diria que em função dessa decisão política de 12 partidos e das pesquisas que estão mostrando que o Orleans está muito bem avaliado, seria um presente ao Maranhão dar continuidade ao governo que está dando certo”.
Note-se: “não se toma decisão apenas com partidos”; “do jeito que as coisas estão caminhando tudo indica que eu vou ficar até o fim do governo…”; “às vezes é melhor ficar sem mandato…”; “seria um presente ao Maranhão dar continuidade”. São expressões mais cheias de possibilidades do que de decisões ou certezas. Mas o discurso político tem esses vieses escorregadios, às vezes de propósito, às vezes por incertezas mesmo. Quanto às justificativas do nome do sobrinho, são tão alheais quanto as nuvens: qualquer Brandão, ou mesmo qualquer nome ali posto, naquela situação teria o mesmo respaldo. Quando ao resultado das pesquisas citadas pelo governador, a pesquisa encomendada pelo PT disse coisa diferente.
Na verdade o que sobra é a mágoa de um governador que esperava que Felipe Camarão renunciasse para ser candidato a senador e ainda eleger seu sobrinho governador.
