O desencontro político das primeiras semanas de fevereiro cedeu lugar à coreografia da festa de Momo. O Carnaval, além de espetáculo, opera como dispositivo de suspensão do espaço e do tempo. Os efeitos são múltiplos: adia conflitos, dilui tensões e oferece à autodenominada classe política o intervalo perfeito para recompor energias e conexões políticas e eleitorais enquanto se aguarda a decisão do governador sobre ficar ou sair dos Leões.
O governador afirma que ficará. A justificativa invoca espírito público e sacrifício político; o efeito concreto é a preservação do controle da máquina estadual no círculo doméstico. Ainda assim, presidentes de partidos, deputados e senadores atuam em modo avião. Ninguém se dispõe a declarar fidelidade a um arranjo que depende de um gesto ainda não formalizado. Até a data da desincompatibilização, prevalece a prudência. Como a experiência ensina nesses casos, silenciar é mais prudente do que apostar. Brandão, por sua vez, repete o “fico” com regularidade, sem que se saiba ainda se o faz para se convencer, pressionar aliados ou impressionar plateias.
A equação, contudo, é simples. A configuração do cenário eleitoral no Maranhão depende exclusivamente da decisão de Carlos Brandão de permanecer ou renunciar. O restante, a exemplo de declarações, reuniões, notas, vazamentos e pressões, compõe a trilha sonora da incerteza, da disputa de cenários. As negativas reiteradas, combinadas às investidas para que o vice renuncie, revelam o desejo latente de disputar o Senado e, simultaneamente, assegurar a transmissão da faixa ao sobrinho. Permanecer e sair tornaram-se movimentos táticos ensaiados no mesmo tabuleiro, com data marcada.
O marco real é 4 de abril. Até lá, tudo é especulação e disputa de narrativas. A reunião com presidentes de partidos aliados foi ilustrativa desse drama. A ausência do partido de Lula não passou despercebida. Mais eloquente, porém, foi o silêncio após a reunião. Não houve aclamações nem declarações entusiasmadas de adesão ao projeto familiar. Instalou-se um silêncio estrondoso, o silêncio de quem aguarda definição antes de comprometer capital político.
No entorno, outras variáveis se acomodam. O PT sinaliza que não apoiará Orleans. Felipe Camarão não precisa afastar-se do cargo para disputar as eleições. O prefeito Eduardo Braide reage às pressões com ginga carnavalesca, como quem sabe que, em política, timing vale tanto quanto votos. As peças se movem, mas nenhuma altera o eixo central da conjuntura. Sem a decisão do governador, não há desenho definitivo de chapas nem de cenários. As pré-candidaturas ao governo e ao Senado aguardam, em clima de folia contida, o anúncio do “fico” ou do “saio”.
O que se apresenta como drama político expõe um impasse decisório. Entre sair e ficar, a indecisão converte-se em método. Enquanto o gesto não se materializa, uns dançam, outros calculam e outros ensaiam cenários. No fim, a política não se resolve por metáforas, mas por atos formais. Até que a decisão seja pública e irrevogável, o Maranhão permanecerá à espera de 4 de abril, quando o enredo do “fico ou saio” deixará o campo das insinuações e ingressará, enfim, no terreno dos fatos.
Prof. Xico
