terça-feira, 12 maio, 2026

A pesquisa Quaest divulgada pela TV Mirante joga água fria na euforia do entorno palaciano. O levantamento mostra que, hoje, a principal sustentação da candidatura de Orleans Brandão é, de fato, a força do governo e a ocupação do Palácio dos Leões. Isso não é pouco, mas também não basta para decretar controle sobre o eleitorado. A própria pesquisa sugere esse limite. Embora 57% dos entrevistados afirmem que Carlos Brandão merece eleger o sucessor, o nome que efetivamente lidera a disputa estimulada para o governo é Eduardo Braide, com 35%, contra 24% de Orleans, 11% de Lahesio Bonfim e 7% de Felipe Camarão. No espontâneo, há empate entre Braide e Orleans, ambos com 15%, mas, quando o eleitor é confrontado com a lista de nomes, Braide abre vantagem. Em política, a máquina influencia, mas não é garantia de sucesso, sobretudo quando o candidato só tem o sobrenome como valor de agregação política e eleitoral.

Esse é o primeiro dado estrutural do cenário. A candidatura governista depende da máquina administrativa para existir como candidatura. E isso faz diferença em relação a Braide, que lidera todos os cenários estimulados em que aparece. Tem 37% num quadro sem Felipe Camarão e chega a 39% num cenário sem Lahesio. Mais que isso, vence também os dois segundos turnos testados pela Quaest: 46% a 33% contra Orleans e 52% a 23% contra Lahesio. Ou seja, não se trata apenas de uma liderança de largada. Trata-se de uma dianteira que, neste momento, resiste à simulação da fase decisiva da eleição. Como Braide sequer declarou oficialmente a candidatura, os números indicam a consolidação de um expressivo ponto de partida, antes mesmo de entrar oficialmente em campo.

É nesse ponto que a chamada “classe política” começa a recalcular rota. Prefeitos, parlamentares, quadros intermediários e operadores profissionais costumam farejar com rapidez para onde corre as águas eleitorais. E, salvo raríssimas exceções, político profissional não pratica harakiri. Ele adere, negocia, ajusta posição e tenta sobreviver. A pesquisa não permite afirmar que o Palácio perdeu a capacidade de influir, mas permite afirmar que essa influência não se converteu, até aqui, em domínio eleitoral. Quem estiver apostando que maquina produz automaticamente voto talvez esteja confundindo poder administrativo com hegemonia política e esquecido a dinâmica política das últimas disputas eleitorais.

Outro fato importante é a posição de Felipe Camarão. O vice-governador aparece, nesse quadro, como uma variável ainda em aberto. Seus números são não irrelevantes no cenário em disputa: 5% no espontâneo, 7% no cenário completo, 9% no cenário sem Lahesio e 16% no cenário sem Braide. Isso indica que permanece com uma liderança capaz de ganhar densidade caso o cenário mude, seja por ruptura no campo governista, seja por rearranjo das forças ligadas a Lula e ao PT. Em outras palavras, apesar da pressão externa e interna sofrida por sua candidatura, Camarão ainda não saiu do tabuleiro, como avaliações interessadas e traiçoeiras insistem em apregoar. Persistem ainda muitas indefinições na composição da cena.

Na corrida para o Senado, o quadro é mais embolado do que a propaganda dos grupos interessados gostaria de admitir. No cenário espontâneo, Brandão aparece com 17% e Roseana Sarney com 14%, seguidos por Roberto Rocha com 9%. André Fufuca e Weverton Rocha têm 7% cada, enquanto Eliziane Gama e Pedro Lucas Fernandes marcam 6%. Nos cenários estimulados, Brandão lidera um deles com 23%, seguido por Roberto Rocha com 11% e Weverton com 9%; em outro, Roseana lidera com 18%, seguida por Roberto Rocha com 12% e Weverton com 10%. Fufuca e Eliziane aparecem com 8% em ambos. Brandão e Roseana saem na frente, mas a disputa está longe de qualquer definição confortável. Há liderança, mas não há folga, assim como há favoritismo relativo, mas não sentença final. Ainda mais que Brandão já anunciou o “fico” e a candidatura de Roseana Sarney, como ela mesma já declarou, depende uma análise profissional do cenário político.

Um dos sinais mais expressivos desse embaralhamento é o desempenho de Weverton Rocha. Quem já foi um campeão de voto e personagem central da política maranhense aparece agora com 9% ou 10%, praticamente comprimido no mesmo bloco de Fufuca e Eliziane. Isso não significa desaparecimento eleitoral, mas indica com clareza perda de centralidade. O senador que já organizou parte importante do jogo hoje aparece como mais um competidor numa faixa intermediária, disputando espaço num campo momentaneamente congestionado.

No caso de Brandão, a pesquisa também desmente a retórica da autossuficiência. O governador continua forte, especialmente para o Senado, e conserva capacidade de influência sobre a sucessão. Mas o levantamento mostra, justamente por isso, o limite dessa força. Se 57% dizem que ele merece fazer o sucessor, os números também mostram que o doutor e a eleitora não declaram apoio ao seu sobrinho. A leitura, portanto, não é a de que Brandão controla o processo, mas a de que ele ainda é um ator central num processo que não controla por inteiro e que a depender dos seus próximos movimentos pode perder completamente o controle. Por isso, ao contrário do que se alardeia em discursos de ocasião, a pesquisa sugere que ele precisa cada vez mais do peso de Lula, como indicou o último lançamento da candidatura de Orleans ao governo.

A persistirem esses cenários e as alianças que deles possam derivar, a tendência mais visível é a de dificuldade crescente para a família Brandão e seus aliados na disputa pelo governo. No Senado, ao contrário, o jogo segue aberto, congestionado e sujeito a novas reacomodações de meio de campo. Em suma, a Quaest mostra que a pré-eleição maranhense entrou numa fase de redesenho efetivo. Para o governo, a liderança está fora do Palácio; para o Senado, há favoritos, mas nenhum deles em condição de tranquilidade. As águas de março, portanto, não consagram ninguém. Apenas indicam que a sucessão começou a escapar do roteiro escrito dentro do gabinete. E, ao mesmo tempo, lembram algo elementar: a pesquisa captou um momento, não um desfecho. Em política, tendências podem se consolidar, mas também podem se desfazer com rapidez. Por ora, porém, os números sugerem que o Palácio continua a pesar, mas já não basta, sozinho, para comandar o jogo. A manter esse rumo, tende a perder o controle, a liderança e o posto que tanta almeja.

Prof. Xico

Registro metodológico: a pesquisa Quaest/TV Mirante ouviu 900 eleitores em 49 municípios do Maranhão, entre 12 e 16 de março de 2026, com margem de erro de 3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Deixe uma resposta