terça-feira, 2 junho, 2026

O Brasil chega a 2026 com uma questão que 1989 deixou em aberto: se a democracia brasileira será capaz de romper com o autoritarismo que carrega desde a fundação, ou se vai mais uma vez acomodá-lo em novas formas, com novas roupagens e novos herdeiros. Acompanhei todas as campanhas de Lula. O que reconheço em 2026 é o retorno desse conflito de fundo, agora em outro patamar histórico. A analogia entre os dois momentos é estrutural, e não apenas eleitoral.

                                                                                                     Prof. Xico Gonçalves, especial para Os Analistas

Em 1989, o país realizava sua primeira eleição presidencial direta depois de 21 anos de ditadura sobre um solo que a ditadura não havia desocupado. A transição foi negociada pelos de cima, para os de cima. A Lei da Anistia de 1979 perdoou os crimes sem julgá-los. As estruturas autoritárias do Estado foram preservadas, e não desmontadas. A Constituição de 1988 foi um avanço real, mas ficou longe de ser uma ruptura. O autoritarismo se reorganizou dentro da democracia que nascia.

Isso não é figura de linguagem. É uma tese. Vladimir Safatle, em A ameaça interna, argumenta que não existem sociedades de democracia liberal de um lado e fascismo do outro. O que existem são sociedades de fascismo restrito, em que a desumanização e a violência espoliativa se mantêm confinadas nas periferias, nas populações colonizadas e nos grupos subalternos, e sociedades de fascismo generalizado, em que essa lógica se expande para os centros da ordem constituída. A democracia liberal, portanto, não é a negação do fascismo como muitos imaginam e teorizam. É o regime sob o qual o fascismo opera de forma contida, até que a crise torna essa contenção impossível, a exemplo do neoliberalismo e os seus efeitos.

O Brasil nunca precisou importar fascismo. Teve o maior partido fascista fora da Europa, a Ação Integralista Brasileira, com mais de um milhão de filiados nos anos 1930. A linha dura da ditadura militar era composta de militares integralistas. A violência espoliativa nas periferias e nas áreas rurais nunca parou. Em 1989, a candidatura de Lula era a única que propunha enfrentar isso como projeto político, com a entrada efetiva dos setores populares na arena decisória e consequências reais para a ordem estabelecida. Por isso foi derrotada com tudo que havia disponível, como empresariado, Globo, boatos fabricados e anticomunismo reativado. O fascismo restrito respondeu à ameaça de ser confrontado.

Em 2026, esse confronto retorna sem a possibilidade de fingir que não se sabia o que estava em jogo. O fascismo já mostrou sua face no governo Bolsonaro, na tentativa de golpe julgada pelo STF, no 8 de janeiro, na destruição de direitos, na pandemia e na repressão contínua aos movimentos do campo. O país já viveu o experimento e conhece o resultado.

É nesse contexto que o filhotismo precisa ser lido além de suas fronteiras regionais. Trata-se da expressão local de uma lógica que percorre o país de ponta a ponta. No plano federal, Bolsonaro construiu sua sucessão dentro da própria família, convertendo capital político em herança dinástica. No Maranhão, o movimento é análogo. O governador rompe o acordo firmado com o campo progressista e lança o próprio sobrinho como candidato à sucessão, perpetuando o controle da máquina do estado por vínculos de sangue e lealdade pessoal, sem qualquer compromisso com projeto ou programa. Formas distintas, lógica idêntica, ou seja, o poder como propriedade, a política como patrimônio transmissível.

Isso não é coincidência. É a resposta conservadora à crise, que consiste em fechar o poder para mantê-lo sob controle. É a reativação, em roupagens novas, do autoritarismo que a transição negociada de 1985 preservou intacto dentro das instituições democráticas, corroendo a democracia por dentro e alimentando o fascismo por fora.

A recusa desse pacto no Maranhão por Lula, Felipe Camarão, Eliziane e setores progressistas não é capricho nem erro de cálculo. É sinal de que, numa campanha plebiscitária sobre a democracia, palanque sem compromisso com o projeto nacional é armadilha e não aliança. Quem ainda lê isso como pragmatismo mal calibrado ainda opera dentro da lógica do fascismo restrito, acreditando que é possível administrar a besta fera, seja em sua forma difusa, seja em sua forma aberta. E crença faz parte do próprio problema.

De um lado, está a lógica do filhotismo generalizado o poder como herança de grupos oligárquicos e fascistas, transmitido por vínculos de sangue e lealdade, blindado contra qualquer irrupção popular, capaz de se adaptar às formas democráticas sem jamais aceitar o que a democracia exige de verdade, que é a redistribuição efetiva do poder e da riqueza para quem foi historicamente excluído da mesa de decisão.

Do outro, a única saída que não reproduz o problema é a mobilização dos de baixo, a redução das desigualdades como condição de soberania e o aprofundamento democrático como resposta ativa à generalização do fascismo. Em contraposição à democracia como forma vazia de gestão, a democracia como processo de disputa real sobre quem decide e para quem os direitos são garantidos além dos limites do centro.

O fascismo generalizado avança quando a democracia deixa de conter o que sempre conteve pela força. A resposta para esse impasse não está em defender essa contenção das forças populares, como acreditam os defensores do filhotismo com a camisa vermelha do sangue daqueles que foram contidos pela violência. Está em superá-la, tornando a democracia tão efetivamente popular que o fascismo perca o solo em que cresce e viceja.

É isso que está em jogo em 2026. Uma escolha sobre que país o Brasil quer ser e para quem. Uma escolha que define, ao mesmo tempo, o presente e o futuro.

Prof. Xico Gonçalves

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