sexta-feira, 7 agosto, 2026

Esta semana, foi publicada a segunda edição do estudo Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, com dados consolidados de 2025. Esse relatório lança luz sobre quem são, como se organizam e onde estão os policiais do nosso estado. Além da estrutura interna, os postos de comando e a diversidade de gênero nas polícias brasileiras. E, ao olharmos para o Maranhão, os números revelam retratos muito particulares — tanto de acertos na nossa estrutura quanto de desafios profundos que precisamos enfrentar.”

POLÍCIA MILITAR: O PERFIL HIERÁRQUICO

Começando pela Polícia Militar do Maranhão. A corporação contava em 2025 com 11.274 integrantes ativos, o 11º maior efetivo do país em números absolutos. Mas o dado mais relevante não é o tamanho, e sim a forma como a tropa está organizada. O relatório nacional faz um alerta grave sobre o ‘achatamento da pirâmide’ nas Polícias Militares do Brasil: no país inteiro, há mais sargentos do que soldados nas ruas. Em 17 estados, a base operacional encolheu e a liderança intermediária inchou, devido a regras de promoção por antiguidade e falta de concursos regulares.

A boa notícia é que o Maranhão não vive essa distorção crítica. Na nossa PM, a pirâmide ainda mantém a sua base tradicional: os soldados representam 43,2% de toda a tropa, bem acima da média nacional de 28,9%. Somados, soldados e cabos chegam a mais de 60% da corporação. Temos, portanto, uma estrutura hierárquica mais proporcional que a maioria dos estados brasileiros.”

POLÍCIA CIVIL: O PARADOXO DAS CARREIRAS

Já na Polícia Civil do Maranhão, o cenário apresenta uma peculiaridade marcante.
Enquanto a média brasileira mostra um predomínio esmagador de investigadores nas ruas, o Maranhão aparece ao lado de apenas três outros estados onde o número de delegados supera o de escrivães. São aproximadamente 114 delegados para cada 100 escrivães no estado.

Os delegados representam quase 22% das três principais carreiras da nossa Polícia Civil, o que é um peso proporcional muito superior ao padrão do país, que é de 13%. Isso sugere uma estrutura forte na direção jurídica das investigações, mas que levanta uma provocação: será que temos o equilíbrio ideal entre quem comanda, quem investiga em campo e quem formaliza os inquéritos nas delegacias?”

A SUB-REPRESENTAÇÃO FEMININA NAS DUAS CORPORAÇÕES

Mas o ponto mais preocupante do relatório para o Maranhão, e que exige debate público urgente, é a desigualdade de gênero. Em ambas as polícias, a presença de mulheres no Maranhão está bem abaixo das médias nacionais. As mulheres correspondem a apenas 13,3% das polícias militares e a 28,4% das polícias civis.

Na Polícia Militar, elas são apenas 11% da tropa, a sexta menor proporção do Brasil. Na Polícia Civil, são 23,5%, a quarta menor do país. Tão relevante quanto o déficit quantitativo, o estudo identifica dois entraves invisíveis no contexto estadual: Na Polícia Militar, vemos a segregação vertical: as mulheres entram, mas não chegam ao topo. Entre os 42 coronéis da PM do Maranhão, existe apenas uma mulher.

Na Polícia Civil, vemos a segregação horizontal: as mulheres chegam a quase 46% da carreira de escrivão, responsável pelo trabalho cartorário, mas ocupam apenas 16,8% dos cargos de investigação de rua. Ou seja, se contabilizarmos entre as mulheres há mais investigadoras que escrivãs, mas na relação geral entre homens e mulheres há mais escrivãs.

O relatório interpreta a baixa presença feminina como resultado da combinação entre barreiras internas e externas. Entre as barreiras internas estão a cultura organizacional masculinizada, o assédio, as piadas e práticas discriminatórias, a exclusão de redes informais de apoio, a distribuição diferenciada das funções e os obstáculos à promoção. As barreiras externas envolvem as jornadas irregulares, os plantões, as exigências de mobilidade, a insuficiência de políticas de apoio à maternidade e a permanência de uma divisão desigual das responsabilidades domésticas e familiares.

Nas polícias militares, tais obstáculos seriam reforçados pela hierarquia rígida e pela valorização institucional de atributos historicamente associados à masculinidade, como força física, destemor e agressividade controlada. Nas polícias civis, embora a estrutura seja menos militarizada, a segregação manifesta-se na concentração de mulheres nas atividades cartorárias, no atendimento a grupos vulneráveis e em determinadas delegacias especializadas, enquanto elas permanecem sub-representadas nas unidades operacionais e investigativas.

E por que isso importa para a segurança do cidadão? Porque pesquisas internacionais e nacionais comprovam que corporações mais diversas recebem menos denúncias por uso excessivo da força, têm maior capacidade de mediação de conflitos e acolhem com muito mais eficiência vítimas de violência doméstica e sexual.
Superar esses gargalos, garantindo a promoção das mulheres aos postos de comando na PM e equilibrando o trabalho operacional na Polícia Civil, não é só uma pauta de igualdade formal. É uma medida indispensável para modernizar e humanizar a segurança pública do Maranhão.

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