De modo geral, a política maranhense costuma ser lida pela chave da oligarquia. Há casos, porém, em que a oligarquia se fecha de tal maneira sobre si mesma que essa noção já não basta para caracterizar e explicar a situação. Quando o poder passa a se organizar como círculo de sangue, confiança pessoal, herança e proteção mútua, o nome mais exato é clã.
No sentido amplo, clã designa um grupo ligado por ancestralidade comum, real ou suposta, reconhecido como unidade de parentesco. Por extensão, a palavra também nomeia um grupo unido por interesses comuns. Trazida para a política, essa ideia ajuda a identificar o momento em que o poder deixa de se orientar por mediações públicas, alianças políticas e pactos institucionais, para gravitar em torno da família, da lealdade privada e da sucessão doméstica.
É aí que a política começa a definhar. Quando um grupo se fecha em torno do parentesco, tende também a se fechar para a realidade e para os próprios aliados. Passa a confundir confiança com competência, sobrenome com liderança, herança com legitimidade. E, ao fazer isso, afasta aliados, estreita o campo político e rebaixa a construção pública do poder à mera administração familiar de interesses privados.
As derrotas mais emblemáticas da oligarquia Sarney guardam relação com esse movimento. A derrota de Edison Lobão Filho e a de Roseana Sarney não podem ser vistas apenas como episódios eleitorais isolados. Elas revelaram o desgaste de uma engrenagem que já não conseguia apresentar seu projeto como horizonte para o campo oligárquico. Quando um grupo se fecha demais, perde capacidade de expansão, de sedução e de pactuação.
A lição estava dada. Mas não foi aprendida. O grupo Brandão parece ter escolhido radicalizar exatamente aquilo que, historicamente, corrói grupos de mando, ou seja, a lógica do clã. E o faz sem considerar que liderança não se transfere por laço de sangue. Liderança se constrói no conflito, na interlocução, na experiência pública e na capacidade de reunir vontades em torno de uma direção legítima. Mesmo Roseana Sarney, herdeira de um poderoso sistema oligárquico, precisou construir densidade política própria. Não bastou carregar o sobrenome famoso do pai.
No caso do clã Brandão, dois movimentos ajudaram a transformar essa inclinação em crise política aberta. O primeiro foi a eleição de Daniel Brandão, sobrinho do governador, para a presidência do TCE. Para a família, tratava-se de recolocar o sobrenome em uma posição de confiança já ocupada pelo avô, Carlos Orleans Brandão, que presidiu o tribunal em 1983-1984. O segundo foi o rompimento do acordo político com o PT e com Lula em nome da tentativa de viabilizar, para o governo do Estado, outro nome do círculo familiar, o sobrinho de Carlos Brandão e filho de Marcus Brandão, Orleans, cujo mérito público se resume ao próprio sobrenome.
Esse tipo de movimento passa para a sociedade que o centro da ação política já não é o interesse público, nem a construção de um projeto de transformação social, mas a reprodução interna do poder por um grupo familiar. Quando isso acontece, a reação tende a vir. E ela vem porque a República, ainda que imperfeita, não pode ser reduzida a patrimônio doméstico de ninguém. E isto explica a posição do presidente Lula e do PT. Quando a política é sequestrada pela lógica do clã, o que entra em disputa já não é apenas uma eleição. É a própria ideia de República.
Prof. Xico
