Partido de esquerda que não cultiva autonomia nem posição estratégica acaba como figurante bem alimentado: ganha lanche e paga mico. … a realidade fala justamente quando a narrativa falha.
Prof. Xico
Slavoj Žižek, conhecido por escrever como quem acende fósforo em paiol, publicou um instigante texto sobre “como Marx inventou o sintoma”. Em tempos psico-políticos, a leitura deste texto pode ajudar o analista a olhar menos para o que se anuncia e mais para o que escapa; menos para a pose e mais para a contradição que range por baixo do palco.
No Brasil, saiu pela Contraponto, na coletânea Um mapa da ideologia. E é com essa chave, a do sintoma, essa ferida que fala e que reúne Lacan, Marx e Freud, que dá para ler a sucessão maranhense pelos tropeços do discurso, pelo dito entre ditos.
O primeiro sintoma é a metamorfose do enredo, da negação do veto à proposta de “neutralidade” de Lula no Maranhão. Neutralidade, aqui, não é prudência. É confissão. É o jeito elegante de dizer que não terá o apoio nem de Lula e nem do PT. A blogosfera alardeia como se fosse estratégia, para compensar o luto. Só que esses truques, às vezes, voltam como boomerang. A neutralidade lulista, se vier, não serve necessariamente a Orleans, serve, com mais facilidade, a Braide. Porque Braide consegue ajuntar lulistas e bolsonaristas na mesma panela e vender a mistura como pragmatismo. Essa é, ao mesmo tempo, sua força e sua fraqueza. Em uma eleição hiper polarizada, uma neutralidade de Lula só beneficiaria a estratégia de Braide de juntar alhos e bugalhos, na feijoada eleitoral.
O segundo sintoma é mais íntimo e é representado pela singela imagem de Iracema Vale e Weverton Rocha na feijoada do PT. Cena que, se fosse literatura, seria alegoria; como é política, vira método. Iracema, indicada com pompa e circunstância por setores do “campo majoritário” como pré-candidata ao Senado, numa tentativa de conter pretensões petistas de voos mais altos, aparece no encontro para apresentar o seu candidato ao Senado. E esse candidato, por sinal, atravessa turbulências públicas. A cena é didática: o PT abre a porta, oferece o prato, cede a moldura e recebe, em troca, um elegante e constrangedor não.
Partido de esquerda que não cultiva autonomia nem posição estratégica acaba como figurante bem alimentado: ganha lanche e paga mico. E é por isso que Žižek ajuda. Ele nos lembra que o sintoma não é detalhe; é a verdade que escapa quando a encenação tenta se impor. Freud, Lacan e Marx, cada um à sua maneira, ensinam que a realidade fala justamente quando a narrativa falha.
Prof. Xico
