quarta-feira, 4 março, 2026

WO não é apenas uma sigla. É um papel político. Um personagem recorrente da cena maranhense cuja função histórica tem sido atuar contra o PT enquanto fala em seu nome. Há figuras que entram para a história por empurrá-la adiante; outras, como lembrava Georgi Plekhánov, especializam-se em fazê-la girar em falso. WO pertence a essa segunda categoria. Seu método é simples e eficaz: imobilizar o PT para garantir, por vias indiretas, a vitória recorrente dos herdeiros das oligarquias.

Trata-se de Washington Oliveira, apresentado por seus correligionários como “O Comandante”. O título sugere liderança, mas os resultados indicam outra coisa: não se trata de comandar vitórias, e sim de administrar derrotas; sempre as mesmas, sempre com os mesmos beneficiários.

Não surpreende que seu pedido de filiação ao PT, em 1988, não tenha sido acolhido de imediato. A maioria dos petistas era contrária, e por razões objetivas. WO foi crítico sistemático da criação do PT e da CUT, atuou contra as oposições sindicais emergentes e em defesa do velho sindicalismo pelego. Antes disso, ainda no PCdoB, aderiu com entusiasmo à campanha Força Total, explicitamente voltada contra os movimentos políticos progressistas da Ilha. A solução encontrada foi pragmática: apoiar Lula primeiro, pedir filiação depois. Funcionou. Formalmente.

Com o passar do tempo, porém, tornou-se evidente que WO não era um desvio circunstancial, mas um padrão político. Ele se consolidou como agente recorrente de bloqueio a qualquer possibilidade concreta de o PT governar São Luís ou o Maranhão. Não se trata de interpretação; trata-se de uma sequência coerente de fatos.

Quando Flávio Dino deixou a magistratura e buscou o PT, esbarrou diretamente nos interesses de WO e acabou no PCdoB. Em 2010, o Encontro Estadual do PT aprovou, por maioria, a chapa Flávio Dino (PCdoB) e Terezinha Fernandes (PT). Ainda assim, WO e seu grupo atuaram deliberadamente a favor de uma intervenção nacional que levou o PT ao constrangedor apoio à chapa Roseana Sarney–Washington Oliveira. O saldo político foi cristalino: o PT abriu mão de liderar um ciclo progressista para assumir o papel de linha auxiliar do conservadorismo.

Em São Luís, o enredo se repetiu sem qualquer esforço criativo. O PT tinha condições reais de governar a capital com Bira. Mas WO e seus comandados, em afinada sintonia com a família Sarney, optaram por lançar a candidatura do próprio WO à prefeitura. O resultado foi previsível: mais uma derrota estratégica, celebrada como se fosse realismo político.

Nem a vice-governadoria escapou a essa lógica. Trocou-se a possibilidade concreta de governar o Estado por uma vaga vitalícia no Tribunal de Contas, condicionada ao apoio do PT ao filho de Lobão contra o campo democrático liderado por Flávio Dino. Nesse episódio, felizmente, as forças progressistas derrotaram tanto a oligarquia tradicional quanto seus operadores ocasionais fantasiados de vermelho.

Agora, WO reaparece liderando um consórcio heterogêneo de frações do PT em torno da candidatura de Orleans, filho de Marcus e sobrinho de Carlos Brandão. A operação é transparente: reconstruir, em chave farsesca, um novo ciclo oligárquico familiar, justamente quando o PT dispõe da pré-candidatura de Felipe Camarão, a única capaz de articular povo, programa e vitória. Mais uma vez, trabalha-se contra o povo em nome de uma suposta governabilidade sem povo.

Diante dessa sucessão impressionantemente coerente de episódios, a pergunta deixa de ser retórica e passa a ser analítica:
WO trabalha para o PT ou contra o PT?
O que ganha esse grupo ao conspirar reiteradamente contra as possibilidades históricas do partido? Não estaríamos diante de um grupo que parasita o PT para preservar o filhotismo, o conservadorismo e a lógica oligárquica no Estado?

Se assim for, não se trata de divergência tática nem de realismo político — esses álibis usuais para escolhas indefensáveis. O que se revela é algo mais elementar e mais grave: a traição política como método. WO não age como quem se equivoca; age como quem sabe exatamente qual destino precisa ser evitado. Seu percurso sugere menos um dirigente mal-sucedido e mais um operador funcional do coronelismo, infiltrado nas estruturas da esquerda para neutralizá-la por dentro.

A pergunta final, portanto, é incômoda, mas inevitável: até quando o PT aceitará servir de escada para quem trabalha, com método e constância, para que o partido jamais chegue ao poder?

Prof. Xico

Deixe uma resposta