Ontem (1º) e hoje vimos um bombardeio da mídia soldada em processo de divulgação-cascata de um acontecimento na Assembleia Legislativa do Maranhão. Mudava o blog (o qualquer que seja o suporte), mas o título era sempre o mesmo: Deputados se unem em defesa da homenagem a Audreia Noleto, após críticas da oposição.
Não me lembro de tê-los visto (muito menos elas) unidos em defesa das mulheres vítimas de feminicídio no estado. E já beiram 100 casos, este ano. Mas para defender, poiar e justificar a honraria “Medalha Maria Aragão”, àquela senhora, todos se acudiram.
Primeiro, que eu nem sabia de quem se tratava essa senhora Noleto, e depois que soube (é cunhada do governador), nada mudou na minha avaliação. Eu sei quem foi Maria Aragão, que eu tive o prazer de conhecer e entrevistar. Na década de 1960-70, quando havia qualquer burburinho de movimentos políticos em defesa de alguém ou dos Direito Humanos, os agentes da repressão vinham recolher Maria à prisão. E ali, ela humilhada, torturada, ameaçada.
A médica comunista Maria Aragão tem o direito de não ter o seu nome pronunciado para apreciar a conduta de nenhuma senhora classuda, “da nobreza”, do meio familiar dos poderosos, nenhuma mocinha comportada, nenhuma colunista social, ninguém que não coloque seu nome, sua reputação e sua pessoa em risco para proteger e salvar desconhecidos.
Mas aplicar qualquer tipo de conhecimento (real) lógico aos acontecimentos cotidianos da política é pura perda de tempo. O que importa, ali, é a coisa comezinha, infame, comum, súbita e inócua. Por que ela, esta coisa, não muda nada.
Quem já foi a uma sessão da Assembleia Legislativa? Você pode até responder: “Deus me livre” ou “agora que to lendo isso que não vou mesmo”… E por aí vai. Mas, não! vá lá. E leve seus filhos, seus pais, seus alunos, seus amigos, seus inimigos.
Por que enquanto os ilustres membros da casa, todos eleitos por nós, quer queiramos ou não, entre um chiste, uma piada, um mico, uma ilação, eles jogam areia nos seus olhos, com decisões importantes e graves, as quais, muitas vezes, muitos deles, nem sabem o que estão votando. “Assinei sem ler”, já ouvi Tantas vezes!
Enfim, a proposição de homenagem foi feita pela deputada Daniela, essa que há alguns dias foi objeto de busca e apreensão da Polícia Federal, juntamente com o namorado, o ex-prefeito de Caxias e atual secretário de estado.
Na fala da deputada 11 parlamentares pediram aparte, para garantir a homenagem. Todos sinceros, estoicos, melíferos, carinhosos, emocionados com o nome da homenageada. Mas o deputado Yglésio, intenso como sempre, afirmou que “Audreia, é uma pessoa de confiança no governo, assim como outros que atuam em modelo ‘pro bono’; várias pessoas no governo Carlos Brandão atuam de modelo pro bono”.
Pro Bono: Latim “para o bem público”: serviços profissionais voluntários e gratuitos prestados para beneficiar pessoas ou organizações carentes, ou em prol de causas de interesse social.
Aí, não, né!? Mas é o Yglésio! E até quem fala pouca besteira no plenário (porque quase nunca fala) abriu o verbo para cortejar a homenageada. A homenageada? Com exceção de quatro parlamentares (Carlos Lula, Rodrigo Lago, Leandro Bello e Othelino Neto), que foram contra, provavelmente, não da homenageada, mas da homenagem, ou dos homenageadores.
Até então eu sabia que a homenageada era cunhada do governador. Tudo bem. Mas era muita sanha, muita baba. Perguntei: “afinal, quem é Audreia Noleto?”. E me responderam: “A esposa de Marcus Brandão!”.
