Por Letícia Cardoso
Professora doutora em comunicação, pesquisadora e coordenadora do mapeamento cultural Caminhos da Boiada
Orquestra, Baixada, Matraca, Zabumba, Costa de Mão, Alternativo… Denominações criadas para nomear o inominável, para classificar a criatividade do povo, categorizar (ou controlar?) as apropriações imprevisíveis dos brincantes com seu brinquedo de boi.
No Maranhão, essas terminologias foram convencionadas em um momento histórico decorrente da vasta catalogação do popular conduzida por Mário de Andrade, agente de institucionalização da cultura no contexto nacional, durante a Era Vargas (1930-1945). Com a Missão de Pesquisas Folclóricas (1938), Mário de Andrade incentivou estudiosos e folcloristas a realizar pesquisas etnográficas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, além de ter estabelecido o anteprojeto que deu origem ao atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Não podemos deixar de destacar a importância desse trabalho de registro e memória do patrimônio imaterial, que valorizou as tradições afro-indígenas no Brasil. Por outro lado, não podemos deixar de refletir sobre o uso político a que esse patrimônio cultural foi submetido, considerando o contexto da época, em que o governo federal buscava a fabricação de uma identidade nacional.
Voltando o olhar para o nosso estado, um reflexo dessa política nacional é a criação da Comissão Maranhense de Folclore, em 1948. Em torno dela, vários pesquisadores e folcloristas passaram a pesquisar os saberes e fazeres populares, juntamente com as universidades e outros órgãos de cultura (a exemplo do Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, hoje desativado). O fato é que, nesse processo de consolidação e legitimação da cultura popular em um plano científico e político, muitas classificações e categorizações foram construídas.
O bumba meu boi, ao mesmo tempo, precisava passar a ser objeto de estudo cartesiano e funcional, de acordo com as teorias positivistas vigentes, e atender a interesses políticos, reelaborando traços étnicos para se tornar símbolo de identidade nacional, em um momento estratégico das gestões culturais, especialmente no período identificado com o governo de José Sarney (1966-1970) no Maranhão.
Desde então, a categoria sotaque passou a ser socialmente convencionada por folcloristas e estudiosos da cultura popular, funcionários das instituições do poder público, pelas mídias, pelo público e também pelos fazedores de cultura, principalmente na capital maranhense, que acabaram absorvendo e operando com essa classificação.
Reconhecemos a relevância daquele momento histórico para o processo de registro e difusão do bumba meu boi, até que fosse reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade. De acordo com o mestre em Cultura e Sociedade Alberto Júnior, “as categorias são pedagógicas dentro da diversidade cultural para lermos as expressões com mais detalhes. Sem elas, talvez a gente teria dificuldade de entender as nuances das práticas culturais”, analisa.
Mas questiono se, hoje, a categoria sotaque, da forma como está posta, ainda dá conta de expressar o universo simbólico de cada grupo de bumba meu boi, único em suas práticas, em sua estética, em sua musicalidade, em sua dança e em suas ritualidades. Por que e a quem beneficia manter as etiquetas dos sotaques no bumba meu boi do Maranhão? Quem tem o poder de nomear as práticas populares? São muitas questões que merecem reflexão, pois inúmeros são os grupos que não se enquadram em nenhuma dessas classificações — o pesquisador Jandir Gonçalves, com suas andanças pelas brenhas maranhenses, que o diga!
Mas esses grupos, invisibilizados por uma classificação oficial, acabam tendo que se encaixar à força nessa organização verticalizada dos sentimentos e da arte popular para participar de editais e programações do poder público.
Uma classificação realizada por mãos brancas, em um período em que se adotou uma metodologia descritiva da cultura popular do início do século XX, hoje apenas reproduzida acriticamente e que atende às determinações de gestões culturais que pouco conhecem a realidade in loco dos territórios criativos do bumba meu boi e que sequer têm problematizado a necessidade de valorizar a identidade regional. São políticas públicas estaduais e municipais precárias e de viés neoliberal, que sabotam o protagonismo do bumba meu boi em nosso São João para realizar megashows, com cachês exorbitantes para artistas considerados “nacionais”, de outras expressões musicais que nada têm a ver com o calendário cultural maranhense, utilizando-se das leis estadual e nacional de incentivo à cultura. Sem falar nos esquemas de repasse de verbas que acontecem sorrateiramente, em escritórios e produtoras instalados dentro dos próprios órgãos públicos de cultura. São tantos equívocos juntos que seria necessário outro artigo para tratar da questão.
Além de ser um elemento determinista, a convenção do sotaque tornou-se um critério utilizado pelos órgãos de cultura para organizar apresentações e pagamentos de cachês, com valores diferenciados para cada sotaque durante o período junino. Nos arraiais e nas programações, podemos observar a preferência por determinados sotaques e por grupos classificados em certas categorias, resultando em uma quantidade maior de apresentações para alguns e ocasionando reclamações dos menos favorecidos.
Outros problemas apontados pelo Dossiê de Registro do Complexo Cultural do Bumba Meu Boi, do IPHAN (2011), são a exclusão de grupos localizados nos municípios do interior do estado que não se identificam com os sotaques oficiais e a tentativa de homogeneização dos grupos a partir dos critérios estabelecidos por grupos mais estruturados dentro de um mesmo sotaque.
Tudo isso me autoriza a questionar: as classificações são mantidas hoje para receber cachês? Para melhor organizar a programação oficial dos arraiais públicos? Podemos afirmar que os grupos sofrem uma violência simbólica para facilitar a vida dos gestores e dos pesquisadores? A falta de interesse em rever a necessidade das categorias de sotaque é uma naturalização da “lógica neoliberal de controle e distanciamento das existências, uma lógica da imposição de uma estética que racializa e segrega?”, como avaliou a geógrafa Louise Furtado da Silva.
A divisão em sotaques no bumba meu boi pode ser expressa como uma tentativa de organizar o caos que faz parte da vida, mas, por se materializar na cultura popular, é preciso lembrar que há também uma tentativa de controle. Neste caso, de corpos marginalizados, geralmente pobres, pretos, indígenas, mestiços e pessoas das classes trabalhadoras, que querem viver sua arte e não estão dando a mínima para defender um sotaque.
Como me desabafou seu Aquino, dono do Boi Raízes de Olinda Nova: “Aqui em São Luís ninguém toca como meu grupo. A gente usa caixa e é chamado de Baixada. Nós somos todos é bumba meu boi!”. Mas seu Aquino, assim como muitos outros mestres, é obrigado a acolher a categoria do sotaque porque isso significa ganhos econômicos, significa obter uma quantidade determinada de apresentações.
Por exemplo, os bois de Zabumba situados em comunidades da capital estão à margem das programações. Nosso projeto de pesquisa Caminhos da Boiada mapeou que, em 2023, havia 12 grupos considerados de Zabumba em São Luís; hoje resistem apenas nove. Segundo os boieiros, há um preconceito maior em relação aos bois de Zabumba e Costa de Mão do que aos demais sotaques.
O Boi de Carutapera é outro exemplo. Ele se desloca todos os anos para o encontro dos Bois de Zabumba porque não se enquadra em outra classificação, mas quem assiste ao grupo percebe que sua musicalidade, dança e indumentária são muito próximas do carimbó paraense, uma influência de sua localização geográfica.
A região de Matinha, município da Baixada Maranhense conhecido pela concentração de comunidades boieiras, tem seus grupos vinculados aos nomes dos líderes e não divididos em sotaques. Os bois considerados de Orquestra já se diferenciam hoje entre Boi de Orquestra do Munim e Boi de Orquestra da Ilha. Quanto aos bois considerados de Baixada, somente na capital podemos observar o Boi de Baixada estilo Pindaré, o Boi de Baixada de Caixa e o Boi de Baixada de Ritinta.
Imaginem, então, se formos em direção ao interior do estado: quanta diversidade vamos encontrar? Os exemplos são incontáveis.
Nesse sentido, poderíamos ter políticas públicas mais democráticas para as comunidades boieiras ao considerar cada grupo de acordo com sua história e singularidade. Cada grupo de bumba meu boi é um agente que contribui para construir uma comunidade, um bairro, um município, agregando pessoas em torno de uma prática artística que gera pertencimento, renda e cidadania.
Eu conheço o Boi de Nadir, Raimundinho, Maria, Bita, Geralda, Marcírio, João, Carrinho, Umbelino, Regina, Analice, Tonico, Arcanjo, Pereira, Juliana, Aquino, Basílio, Cláudio, Geralda, Herlisson, Jailson, Zé Carlos, Zé Olhinho, Inaldo, Zequinha, Leila, Maria da Fita, Mãe Duca, Rosália, Martinha, Nelci, entre outros…
Cada mestre lidera uma comunidade única, incomparável e com práticas enraizadas em seu território criativo, desenvolvidas na sociabilidade entre seus integrantes. Parece óbvio dizer, mas quem faz o boi que vemos nos espetáculos dos arraiais são seus mestres e sua comunidade, no dia a dia anônimo e insistente, que não se limita ao mês de junho.
Então, sem a intenção de anular o caminho que foi construído até aqui pelas pesquisas sobre o bumba meu boi, proponho uma revisão das categorias que realmente conheça a diversidade de expressões existentes no território maranhense, guiada pela escuta ativa dos mestres e brincantes de bumba meu boi, para que eles próprios identifiquem o que é importante classificar ou não.
Uma proposta que será certamente impopular, mas também corajosa; que rompa com a rigidez de categorias que não dão conta — e talvez nunca tenham dado — de compreender essa prática cultural que representa o principal traço de identidade e pertencimento para aproximadamente 450 comunidades no Maranhão e que reconheça a agência dos mestres, principais responsáveis pela existência do bumba meu boi até os dias de hoje.
