A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram na última quinta-feira (13) a Operação Monte Sinai, que investiga uma organização criminosa suspeita de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos no Maranhão. A ação, que cumpriu nove mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, mira um esquema que envolve empreiteiras, agentes públicos e políticos, com um padrão que se repete em diferentes contratos e empresas.
As investigações revelam que a Argos Engenharia e Empreendimentos LTDA pode estar inserida no mesmo esquema das empresas Vigas e Qualitec, que já são alvo de apurações por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. A Argos foi flagrada pela Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra) executando obras em um terreno privado, desviando-se completamente do objeto do contrato, que previa reforma e adaptação de logradouros públicos. O episódio lembra o modus operandi de outras empresas investigadas, como quando a PF encontrou R$ 1 milhão em espécie com um dos envolvidos, um dos indícios do funcionamento do esquema.
O histórico recente mostra um padrão de conduta. A Vigas Engenharia, por exemplo, transferiu R$ 38,9 milhões para a I.S. Guimarães, empresa ligada ao deputado federal Josimar Maranhãozinho (PL-MA), em 50 operações. O cruzamento de dados bancários da PF identificou que, em 298 situações, a Vigas fez repasses para a I.S. Guimarães no mesmo dia ou até dez dias após receber recursos públicos, sugerindo uma movimentação coordenada.
Já a Qualitech, que recebeu mais de R$ 900 milhões do governo do Maranhão desde 2022, tem como sócio o prefeito de Paço do Lumiar, Fred Campos, e sua vice-prefeita é sobrinha do governador Carlos Brandão. A empresa também é investigada em outra operação da PF por transferir R$ 5 milhões para um posto de combustíveis que repassou o mesmo valor para uma empresa ligada ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), sugerindo um sofisticado esquema de “conta de passagem” para ocultar a origem dos recursos.
No caso da Argos, a Sinfra cancelou e anulou as notas de empenho e liquidação, e instaurou uma sindicância investigativa para apurar a “impropridade do objeto” e a eventual responsabilidade de servidores e terceiros. Embora a Sinfra afirme que não houve prejuízo ao erário porque os pagamentos foram cancelados, o caso gerou uma ação popular na Justiça, movida pelo deputado estadual Rodrigo Lago (PCdoB), que aponta suposto desvio de recursos do FUNDEF na construção de uma escola no bairro do Angelim.
Segundo a denúncia, a Argos recebeu cerca de R$ 11,9 milhões por serviços que, na prática, não foram executados no local. O contrato, firmado por meio de um “contrato guarda-chuva” da Sinfra, previa inicialmente R$ 5,2 milhões para a obra, mas já foram liquidados R$ 11,9 milhões com recursos de precatórios do FUNDEF. Em diligência realizada em 17 de dezembro de 2025, o autor da ação constatou que o terreno permanece descampado, com apenas terraplanagem executada, enquanto medições oficiais atestaram a execução de fundações, estruturas metálicas e climatização — serviços incompatíveis com a realidade observada.
O cerne das investigações está na rede de relações entre políticos, empresários e empreiteiras. A suspeita é que as empresas atuam em conluio, utilizando contratos públicos para desviar dinheiro e lavar dinheiro por meio de repasses sucessivos entre diferentes companhias, muitas vezes ligadas a políticos e seus aliados. A nova fase das apurações, com a Operação Monte Sinai e os desdobramentos da Operação Sem Desconto, indicam que o governo do Maranhão e o STF buscam desmontar uma estrutura criminosa que pode ter desviado centenas de milhões de reais dos cofres públicos.
