Movimentos como o chamado redpill ganharam espaço no ambiente digital ao se apresentarem como um suposto “despertar” para a realidade das relações de gênero. Essa promessa de revelação — envolta em jargões pseudocientíficos e discursos de auto aperfeiçoamento masculino — opera, de fato, como uma estrutura de amplificação do ressentimento e de naturalização da violência. A aparência de sinceridade brutal, tão valorizada por esses grupos, funciona como porta de entrada para uma pedagogia do ódio que, longe de existir apenas no plano simbólico, mobiliza práticas concretas de agressão. O caso…
UM POUCO DE HISTÓRIA
Paulo Henrique Matos de Jesus
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Doutor em História; Pesquisador em História Social do Crime, Aparatos de Policiamento e Segurança Pública;
Analista Técnico do Observatório da Criminalidade da Associação dos Delegados do Estado do Maranhão (ADEPOL-MA)
De acordo com o Anuário e análises de violência letal, o Maranhão aparece entre os piores desempenhos do país no enfrentamento às mortes violentas, sendo um dos poucos que, em 2024, registraram aumento da taxa de mortes violentas intencionais, na contramão da tendência nacional. Entre janeiro e outubro de 2025, 113 pessoas foram mortas em decorrência de intervenção policial no Maranhão, contra 79 no mesmo período de 2022 – um aumento de 43,04%. A sequência dos dados do SINESP-MJSP para o estado (79 mortes em 2022, 47 em 2023,…
A realidade nunca chega “crua” ao público. Ela é sempre narrada, montada, enquadrada. Nos discursos midiáticos, o fato não desaparece, mas se converte em enunciado: uma versão situada, atravessada por disputas de sentido, por relações de poder e por expectativas de audiência. É nesse intervalo — entre o acontecimento e sua formulação discursiva — que se instala um campo decisivo para entender como sociedades percebem a si mesmas, como naturalizam violências, como elegem culpados e inocentes, como definem o que é “crise”, “ameaça”, “progresso”, “ordem” ou “degeneração”. A mídia não…
Todo novo “PL antifacção” no Brasil começa com a mesma promessa épica: agora vai. Agora o Estado vai enfrentar as facções como elas “merecem”, com leis duras, linguagem de guerra e algum herói de ocasião encarnando a vontade de “limpar o país”. Só que, quando olhamos com calma o parecer do deputado Guilherme Derrite, o roteiro se inverte: por trás da retórica musculosa, surgem fissuras institucionais, brechas perigosas e um velho risco conhecido — usar o medo legítimo da população para legitimar instrumentos de exceção que não fortalecem a democracia…
Um diálogo que em termos de segurança pública jamais deve ser ignorado Paulo Henrique Matos de Jesus* Jacqueline Muniz, antropóloga e professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) e profunda conhecedora dos problemas e da complexidade que envolvem o tema no Brasil, sofreu semana passada inúmeros ataques desqualificadores de sua competência. No cerne dos ataques está a velha e falsa concepção de que a gestão e produção do conhecimento segurança pública é monopólio das forças de segurança pública e do Direito. A diferença entre os…
Paulo Henrique Matos de Jesus, especial para Os Analistas* A Prefeitura de São Luís anunciou a operação o de um sistema de videomonitoramento com reconhecimento facial — a chamada “muralha digital” — como reforço às ações da Guarda Municipal. O anúncio, feito nas redes, apresenta a tecnologia como capaz de cruzar imagens em vias públicas com bases de procurados e apoiar abordagens em tempo real. Em 24 de outubro de 2025, perfis oficiais e repercussões locais registraram a entrada em funcionamento do sistema, depois de promessa feita no fim…
Paulo Henrique Matos de Jesus*, especial para Os Analistas Nos últimos dias, São Luís mergulhou num circuito de pânico em que áudios e vídeos atribuídos a facções passaram a pautar deslocamentos, horários de aula e o humor coletivo. O enredo combina dois planos: acontecimentos violentos efetivamente registrados — tentativas de homicídio, tiroteios pontuais e prisões — e uma camada ruidosa de mensagens não verificadas que amplificou a sensação de colapso. Em entrevista, o secretário estadual de Segurança, Maurício Martins, reconheceu que houve ocorrências criminais na Grande Ilha, mas atribuiu a…
A categoria de análise chamada de mortes violentas intencionais (MVI) é composta pelas seguintes subcategorias: homicídio doloso, latrocínio, feminicídio, agressão seguida de morte e morte decorrente de intervenção policial. Conforme o portal do MJSP, através do SINESP (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública) o Maranhão ocupa, em números absolutos, a 4° posição entre os estados com maior ocorrência de MVI do Nordeste. Por outro lado, observando a taxa por 100k hab (método de observação mais adequado) o estado possui a 2ª menor da região (21,1), entre os meses de…
São Luís se autointitula como “uma cidade cheia de lendas e mistérios”. Alguns desses “mistérios” se eternizaram no imaginário popular, enquanto outros nem tanto. Como exemplo destes “mistérios” esquecidos temos a morte do Joalheiro Galeotti/Galleotti. A cidade ainda avaliava os estragos provocados pela chuva torrencial da noite anterior quando a imprensa noticiou a descoberta do cadáver do conhecido joalheiro e dono da ótica e joalheria “Pêndula Maranhão” (Rua Oswaldo Cruz, n° 23). O corpo do joalheiro Galeotti/Galleotti, que morava em uma casa simples situada à Travessa 5 de outubro, no…
Executado a 21 de abril de 1792, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, era um típico brasileiro que devido sua descendência portuguesa ingressou na tropa de linha como alferes (equivalente a 2° tenente) da 6.ª Companhia de Dragões da Capitania de Minas Gerais. Como ainda hoje é comum, Tiradentes exercia ao mesmo tempo a função militar e outras atividades: tropeiro, comerciante, minerador, contrabandista. E também tinha lá suas ambições pessoais. Não era rico, mas não era nenhum miserável. O inventário de seus bens revelou que ele era…